domingo, 21 de novembro de 2021

Liberdade

 

O Chamado de Mateus. 1599-1600. Por Caravaggio, atualmente na Capela Contarelli em San Luigi dei Francesi, em Roma.
O Chamado de Mateus. 1599-1600. Por Caravaggio,
atualmente na Capela Contarelli em San Luigi dei Francesi, em Roma.

Não posso lamentar o que sofri,
maldizer os dias do passado
ou tudo de que me arrependi
pois tua graça ali me quis achar,
lá me deste a dita de te conhecer
Já não sei dizer meu nome
sem pensar naquele encontro
e fico imaginando ver teu rosto,
tua graça misteriosa, benfazeja
que não desfaz meu erros e pecados,
mas tudo que por eles eu perdi
embora fosse muito agora é pouco
ante a graça que de ti eu recebi,
e minha desventura transformaste
em esperança, tristeza em alegria
e em desejo de ser eu, de ser teu,
liberdade que jamais encontraria
noutra parte e me alcançou ali
onde as cadeias eram inquebráveis
e ganhaste para ti meu coração
que agora será teu, eternamente

sábado, 29 de agosto de 2020

Caminhar


Paraste de caminhar e eis
aqui agora o termo de teus
passos feito nosso recomeço,
a cruz maldita agora trono
do Senhor, o Rei altíssimo
que domina e vence a morte,
morte destruída quando a
vida penetrou-lhe a fonte
e na morte matou a própria
morte e fez dia nossa noite
e nossa estrada recomeça,
teus passos são os rastros
que agora perseguimos, fim
que desejamos e esperança
de ver teus olhos no final
abertos, contemplar a vida
apenas vislumbrada nesta
vida, Céu eterno, glorioso
que vieste nos mostrar!

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Necessidade

Como é possível que o que quero seja, antes, o que queres? Tu me queres para ti muito antes de eu querer-te para mim ou querer me dar a ti. Minha vontade é só reflexo de teu plano, de teu desejo que me atrai sempre mais intensamente. Oh, admirável amor, tu me amas e eu, pecador, tantas vezes te odiei e te desprezei, mas tu sempre me amas e me queres. Por isso te desejo e quero ser inteiro para ti e nada mais. Oh, mistério que ultrapassa todo desejo natural, tu me cativas sempre que te experimento, sempre que a tua misericórdia abraça meu desmerecimento, sempre que te vejo no altar empobrecido, imolado por meu amor. Tu, amor, és infinito, imprevisível e assim tu me alcançaste, com tuas surpresas me cercaste e minhas certezas e meus planos transformaste, revolveste a minha história e nada mais parecia ser como me lembrava. Tua luz misteriosa revelou-me tudo e contou-me a minha história vista por teus olhos e pareceu-me não ser minha, tu a transfiguraste! O que descobri se tornou para mim necessidade, teu chamado agora iluminado por todos os sinais que outrora não reconheci, sinais passados transformados agora em profecia, interpretados à luz da nova história que agora começaste: minha vida consagrada totalmente ao teu amor! Era teu plano desde o início e eu não sabia, mas agora percebi que em tudo que escolhi a tua graça me amparava e fui trazido até aqui até ver se encontrarem dois caminhos que na verdade são um só, o teu, que no passado eu, desfigurado, percorri sem perceber. Descobri que a minha liberdade já estava em teu desígnio, teu mistério de amor que nunca saberei explicar, minha vocação que não posso justificar senão pela certeza inefável que dentro de mim parece eterna, sem fim e sem começo: é uma necessidade!

sábado, 27 de abril de 2019

Teu coração

Tu vens ao meu coração
e queres ficar, não olhas
minha indigência, queres
tocar-me, vens até mim
e me abraças, me amas
sem que eu mereça, tu
não te deixas vencer,
és maior que a fraqueza,
maior que a pobreza,
maior que a maldade
Tu, grande, eu, pequeno,
tu, Senhor, eu, indigente,
te fazes meu hóspede,
te fazes pequeno, entras
em mim, comunhão,
gratidão, para que tu
cresças em mim e eu
diminua, para que tu
sejas em mim conhecido
e amado, adorado, servido,
eu, pobre vaso de barro
sou, num instante, silêncio,
sacrário de Teu coração

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Meu Deus

Teu amor como uma flecha
me traspassa, sede insaciável
de beber de tuas águas,
chama de amor incandescente,
luminosa, suave e impetuosa
que arde em minha alma
e a consome sem a destruir,
és meu desejo irrefreável,
secreto impulso de amor
que me leva ao sacrifício,
mão amorosa, irresistível
que me vence, que destrói
a inimizade que eu nutria
contra ti, secreta chama
que desde minhas entranhas
se alastra e me transforma
neste amor que me consome
sem me destruir, holocausto
oferecido por ti mesmo
em minha alma de amores
inflamada, por ti vestida
de tua formosura, amor
feito pequeno para viver
dentro de mim e vigário
de mim naquela cruz,
Deus que me salvou
que me venceu
que me amou
e se fez meu

segunda-feira, 25 de março de 2019

Tua Graça

Certa vez ouvi de um padre que a vida no Seminário é um “tempo de anonimato para aprender a ser nada”, um nada que deve ser transparência de Cristo, mas, a cada passo que damos, mais somos conhecidos e, paradoxalmente, quanto mais aparecemos, mais devemos desaparecer, porque, no seguimento de Cristo, crescer é diminuir, subir é descer, viver é morrer, como Ele chamou Sua glorificação à sua exaltação na Cruz. A vida sacerdotal é assim, coloca-nos à frente de muitos para tornar-nos os últimos, nos desapropria, nos desaloja e, apenas nos aproximamos, embora ainda a certa distância, já pressentimos o fardo suave desse doce mistério. Essa graça é ainda para nós esperança, prece e sacrifício e, por ser esperança, antecipa-se em alguma medida já agora o que esperamos será um dia exigido de nós em virtude da ordenação. Tocamos, já agora, os paradoxos da existência sacerdotal, devemos aparecer para desaparecer, crescer para diminuir a fim de que Cristo só apareça em nós.

Tu, amor, em mim concebes
esse estranho desejo de morrer,
de dar a vida e não mais me pertencer,
tornado prece, esperança e sacrifício,
esse desejo que me faz desfalecer
ao ouvir o que me dizes em segredo
e atraído até os pés de tua cruz
quedar rendido sem conseguir fitar a luz
de teu amor que me fere e que me cura
querendo refletir em mim tua formosura
levando em minhas mãos o teu mistério,
minha esperança, prece e sacrifício,
eis minha vida já aqui oferecida
para que faças de mim o que quiseres,
mas nada posso se não ajuda a tua graça,
isto peço, para até o fim não te trair,
a tua graça, e nada mais

terça-feira, 12 de junho de 2018

Sempre Pouco

É sempre pouco o quanto espero
para ve-Te no Céu enquanto
espero ver-Te aqui no tempo,
espero um dia possuir-te só,
ser somente Teu, esquecer-me
de todo resto e a tudo ver
com Teu olhar, amar a todos
com Teu amor, viver de Ti,
abandonado, pobre, despojado

Mas eu sempre espero pouco,
o tempo é pouco, sempre curto!
Quando olho e vejo: já Te tenho,
já me tens e o passado é pó,
desfez-se num sopro e só,
já nem posso olhar atrás,
seria desistir do que esperei,
esperei tanto e tão pouco
agora que já me tens aqui

Desfez-se o tempo neste tempo
que já parece a Eternidade,
sou Teu Céu, Teu Sacrário
meu coração é Teu presépio,
sou Teu berço e ostensório,
sou barro e pó e me fizeste
vaso puro, pobre, simples
que espera acolher-Te hoje
para sempre ser em Ti e só

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Meu desejo

És meu desejo, meu sonho, luz que brilha ao longe no caminho indicando a direção e, em meu peito, chama, amor ardente que me abrasa e que me impele a ser mais do que sou, a dar-me, esvaziar-me de minhas pretensões e das esperanças todas que tivera antes de Ti.

Jamais posso repousar, És caminho nunca findo, destino inatingível e só tangível pela fé, esperança quase cega e cega, só vejo um rastro fino de Tua luz e o resto creio, é luz que basta ao meu caminho, Teu caminho para mim aqui, até que finde, quando assim o quiseres, meu martírio, meu desejo, meu motivo. És para mim e eu agora para Ti, És minha esperança e prêmio que já possuo abandonando o que não posso ter ao mesmo tempo, todo o resto, até meu coração e minha vida. Dou-te tudo e te darei sempre um pouco mais até que tudo tenha sido posto sobre o altar do sacrifício e consumido pelo fogo de Teu amor divino que me impele e me atrai, que me queima fazendo perecer o que não poderá ser Teu.

Eis-me aqui, Amor, meu coração rendido e meu desejo, meu propósito e promessa de ser inteiro para Ti e não dividir meu coração, de dar-te minhas mãos e pés, meu olhar, minha voz e coração, dar-te minha vida para ser Teu sacrário e ostensório, sinal do amor que tens por mim, do amor que me mantém cativo nesta divina liberdade, em Teu serviço. Eis aqui Teu servo que, mesmo compreendendo pouco, aceita tudo que virá de Tuas mãos.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Pareces

Tu te rendes a mim
E te submetes a meus
Limites, Deus infinito
pequeno e quase
invisível

Pareces ser pão
e apenas vinho,
mistério tão alto
e tão baixo, Tu
infinito e pequeno

Teu zelo por mim
te consome, aniquila,
tu te esvazias e fazes
que eu viva de ti,
és minha vida

Assim desapareço
a pouco e pouco
e tu como outrora
serás visto se vivo
e se vives e mim

Eis minha morte,
vida, fruto do trigo
em semente lançado
na terra de meu
coração.

sábado, 29 de julho de 2017

Para Ti

Abro os olhos, abro as portas
de minha casa, podes entrar,
vejo que tu me vês e isto já
é meu convite, resposta ao
teu pedido, já querias entrar
antes que eu te pedisse, bem
antes que se abrissem meus
olhos e eu visse tua glória,
Tua e minha vida entrelaçadas

És Deus e Senhor de tudo
e eu, mergulhado em tua luz
rendido me calo, me deixo
envolver, abraçar, preencher
por ti, por teu amor imenso
que em mim a tudo dá sentido
e me fazes ver, já não mais
com esta luz que penetra
meus olhos, com teu amor

Vejo já tua Glória, vejo que tu
me vês e me amas, que sou
em ti, vivo em ti e para ti e só
será verdadeira minha vida
se for assim, se eu for inteiro
para ti para sempre e serei,
eis meu pedido, minha prece,
resposta ao desejo que é teu
amor que me fez só para Ti

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Teu rosto

Teu rosto é luz que me ilumina,
faz-me ver a esperança que
a sombra de minhas faltas
escondeu, amor tão luminoso
que fez que se abrissem
esses olhos tão afeitos
a outras cores, menos vivas
que estas que adornam teu
rosto, face ensanguentada
que me mostra teu amor,
tuas lágrimas benditas
que me lavam e me curam
que me salvam, que me
chamam, que me atraem
até aquele monte, aquela cruz,
aquele túmulo, aquela luz
aquela voz que me envia,
que me manda ser sinal
de teu amor que me salvou

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Comunhão e Redenção

Vendo Maria Seu Filho quase morto, as lágrimas misturadas ao sangue e ao suor do cansaço e da morte, o frio envolvendo Seu corpo e o mundo, ela chorava, silenciosa, olhando aqueles olhos que ternamente a fitavam do alto daquela morte e sentiu ecoar em seu coração o último faça-se, o derradeiro dom da divina caridade: consumava-se seu primeiro sim no amor de seu Filho, abandonado, ofertado, oblação única de dois corações, dois silêncios que, turvados, se entreolhavam atravessando a dor com dardos de amor amor anelante, alcançando seu coração de mulher e mãe a fornalha de amor ardente de seu Filho Divino, amor consumado e consumido, coração trespassado vertendo vida a quantos quiserem viver. Mãe desfeita e refeita no cume da redenção que o Amor quis nela antecipar como fruto da semente que mais tarde morreria, sorria chorosa o Amor feito carne e feito sangue, tornara-se mãe daqueles que Ele viera salvar. Ainda embebida na inocência que não poderia prever tão grande derramamento de amor, sentia-se deslumbrada, vencidos o temor e a angústia do fim imprevisto e infinito quando visto por dentro, e descansou ela também na morte do filho, num silêncio profundo que parecia capaz de segui-lo às profundezas da morte sem, no entanto, deixar de permear a terra e a vida que a envolvia, seu olhar agora capaz de doar o amor que vira totalmente derramado sem esgotar-se, seu coração tornado âncora do paraíso, escada do Céu. Como haveria quem não amasse seu Filho quem se aproximasse de seu coração atravessado pela espada do amor, daquele coração aberto e feito refúgio dos desesperados pecadores? Fê-la seu paraíso o Senhor de toda beleza para nela o encontrarem quem O buscasse! Ah, inefável amor divino, que faz de criaturas seus filhos e entre eles quer encontrar Suas delícias! Não amar-te nos é impossível depois que te vimos, Amor, em Teu último e máximo gesto, Teu sangue vertido, Teu corpo doado, Tua vida tão perto de nós que a podemos tocar, comungar, nossa dor transformada em amor, redenção!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Amor imenso

Descobrir-te no Sacramento, desejo fácil
de um coração desfeito, desfalecido,
olhar fixo nesta luz estranha, estranha
voz que chama, chama ardente de desejo
alheio a qualquer desejo que se possa ter
naturalmente, semente de vida eterna
plantada no tempo, tempo que desaparece
quando Te vejo aqui oculto no Sacramento,
instante eterno que me faz perceber-me só
se não Te tenho, se não estou contigo
mesmo quando não estou a sós contigo aqui
e Te descubro e redescubro aqui e noutros
lugares, corações altares de tua vida-morte-
ressurreição, olhares rápidos, esquivos,
fixos em mim e no meu coração-espelho de
tua face, devo ser só isso, ser teu e só
levar comigo esse amor imenso que faz arder
em mim este desejo simples e tão intenso,
imenso dom que fiz de mim, que fazes de Ti.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Miras meus olhos

Miras meus olhos,
Vês meu coração
E o teu se desfaz
E te derramas,
Doce amor

Miro teus olhos,
Vejo teu coração
E o meu se desfaz,
Refazes tudo
Que eu destruí

Basta-te nada,
Fazes tudo do infinito
Vazio e do caos
E de mim muito
Mais do que era

Amas-me e fazes
De mim teu amor,
Miras meus olhos,
Os teus, sou tua
Imagem, teu filho

Se tu me amas,
O que mais importa?
Se te amo, nada
Mais importa senão
Tu, vida minha!

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O que vi

O que meus olhos esperavam
ver quando se abriram à tua luz?
Esperava um consolo, contentamento
instantâneo porém duradouro,
uma compensação aos fracassos
de outras esperanças que tive
antes de conhecer-te, Senhor

Vi sobre mim tua misericórdia
pousar e permanecer, tua força
misteriosa que me faz caminhar
quando não posso ver, viver
sem pesares mesmo se as dores
e a insatisfação prevalecerem
no tempo e não houver repouso

Vi o teu rosto, luz inefável
a iluminar-me a razão, sentimento
que não sei descrever, mistério!
Não era luz o que vi, tampouco
era sonho, devaneio, ilusão,
era fé, iluminação, despertar
de meus sonhos, ressurreição

Senti teu abraço, mistério
que tampouco sei descrever,
teu corpo, doce mistério!
Tua vida era a minha, inefável
revelação, meu sangue era o teu,
meus olhos fechados, abertos,
era a ti que eu via, meu Deus.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Simplesmente

És, simplesmente,
Sem mais, se não cabes
Em meus pensamentos,
Emoção ou sentimentos,
Quanto mais num adjetivo,
Mera palavra minha
E nada mais

Entrarias em mim,
Em meu coração?
Se guardo silêncio
Entrarias em mim
Se não te chamo
Por nome que não
Te serve, virás?

Vem, Senhor Jesus,
Deus de minha vida,
Em ti sou, porque és,
Vivo porque queres,
Vejo-te porque me vês,
Sabes tudo de mim
E eu te amo só, sem mais

O que mais poderia
Eu em minha fraqueza?
Amo-te somente,
É tudo que posso
Se deixo de lado
O resto, o que faço
O que poderia fazer

Meu amor não é simples
Gesto, é dom, sacrifício,
Silêncio e sujeição
À tua ação e desejo,
O mesmo desde sempre,
De que eu viva sempre
Para ti, para ti, Senhor

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sacrifício Bendito

Oh Sacrifício Bendito, mistério que ultrapassa infinitamente o curto alcance de nossa razão! Com o quê compará-lo para mais nos aproximar de seu sentido perfeito? É como o homem que se deixa matar para salvar a vida de seu filho, como a mãe que prefere morrer de fome a deixar que a sintam seus filhos. É como desejo nunca satisfeito mas em permanente tensão de realização, como luz que subitamente dissipa as trevas e nos ofusca os olhos, como sol sempre nascente e sem possível ocaso ou eclipse. É como sede infinita que se tenta saciar continuamente, como generosa oferta de si à necessidade constante do outro em detrimento da própria. É como a água límpida de uma nascente virgem, como feixes multicores da luz refratada em cristais, como canto de pássaros ou como fragor de cascatas. É como o horizonte sempre em partida e nunca ao alcance das mãos, como imaginar o que há depois deste véu e descobri-lo sempre insuficientemente em movimento jamais interrompido. É como descanso depois de árduo trabalho, como saciedade depois de longa privação, felicidade inabalável em meio a tormentos e sofrimentos, inabalável contentamento em meio a contrariedades, paz estável indiferente a todo resto. É rir-se da morte e de seu poder estéril, sentir a dor como se fora prazer, sentir a tristeza como se fora alegria. É como o findar-se de toda dor, pois que toda dor não lhe pode superar o gozo, como o eclipsar das trevas, sentido para toda ausência de sentido. É paradoxo para nossa razão, é nossa rendição, retorno à nossa condição primeva e clareza para nosso olhar outrora opaco: eis o Senhor humilhado e o homem exaltado na humilhação! Eis o Cristo rendido à maldade do homem, o Verbo de Deus feito carne cravado na cruz, o homem crivado pela própria maldade que o crucificou! É paradoxo para nossa razão, é nossa rendição, é como Deus nos prova a verdade de Seu amor, amor infinito que sendo infinitamente maior do que nós quis parecer menor do que nós, para que nós, movidos pelo desejo de desvendar-lhe a verdade, dele nos aproximássemos sempre mais, continuamente, indefinidamente, eternamente.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Porquê

É sem porquê a rosa e o lírio,
o pássaro e todo resto
que cresce porque cresce
sem cuidar de si,
sem querer ser visto
Seria eu sem porquê ?
Poderia eu não ter razão,
motivo ou sentido,
ser passivo, imparcial,
indiferente a juízo
ou pensamento alheio?
Poderia, talvez,
mas seria impossível
viver veramente
ignorando um motivo,
o porquê que escolhi
tomar para mim,
Deus sacramento,
Eucaristia, sacrifício
que a todo porquê
sobrepuja, motivo
de minha vida,
meu porquê

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Adoração

De morte me feriste
Quando me chamaste
A estar aqui, ficar
Junto ao teu coração

Ser teu sem reservar
Nada pra mim, esvaziar
A mim Inteiramente em ti
Em teu coração

Morte feliz pude provar
A mais doce dor
Que jamais me pôde tocar
Tua mão, teu amor

Vida que aqui encontrei
À parte de tudo e de ti
Amigo tornei-me sem ver
O que em mim fazias tu

Mataste em mim a morte
A vida que eu pensara ter
E puseste em mim o desejo
De ter-te só, nada mais

Abriste assim meu coração
E tu, sem poderes conter-te,
O habitas agora, fazes de mim
Teu céu, altar, Calvário, Tabor

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Busco

Busco-te num silêncio
quase secreto, escuro
solidão pacífica,
teu coração

Passa o tempo e vejo
Só o Senhor, o desejo
De parar, silenciar,
olhar-te, só

Tu, nada mais,
tudo tenho aqui
Tu, eu e tempo
para ficar

Busco-te agora
Sem depois, tempo
curto, anúncio
d'outro tempo